Entrevista com a Dra. Ana Julia Perrotti-Garcia

Entrevista com a professora Ana Julia Perrotti-Garcia
"Adore o que você faz, mas vá se reinventando a cada dia, sempre procurando melhorar mais" 
Belas palavras da convidada (*) que honra meu blog e dá início à seção de entrevistas. 

Ana Julia Perrotti-Garcia (São Paulo, Brasil) é tradutora e intérprete, mas antes de tudo uma professora. Já deu aulas de morfologia para futuros cirurgiões-dentistas, aulas de inglês, de linguística e de tradução. Atualmente, desenvolve cursos de audiodescrição, tanto presenciais quanto online. Seu amor pelas palavras levou-a a conceber diversos dicionários e cursos, sempre procurando estabelecer uma ponte entre as pessoas, as culturas e os conhecimentos. Além de pertencer a grupos de pesquisa e de importantes associações profissionais (ATA, IMIA e ABRATES, entre outras), Ana Julia é membro do Programa de Mentoria da ABRATES, um programa voluntário e não remunerado, que busca orientar os ingressantes no mercado de Tradução e Interpretação, para uma atuação ética, consistente e profissional. 

SRM – Muito obrigada por ter aceitado fazer esta entrevista. Para mim é realmente uma honra. A primeira coisa que eu gostaria de saber é como uma doutora, cirurgiã, virou tradutora, docente, escritora... Como foi lidar com o exercício de tantas profissões?

Ana Julia – Sonia, primeiramente, gostaria de agradecer pelo convite, e dizer que a honra é minha de ser entrevistada para seu blog, e falar diretamente com nossos amigos da Argentina (um país que, de certa forma, está tão próximo da minha vida, já que a família de meu marido é em parte da Espanha e em parte da Argentina).

Falando de minha trajetória, sempre quis ser professora de inglês, mas por pressão familiar acabei indo cursar minha segunda paixão, que era a odontologia. A faculdade foi maravilhosa, e eu adorava as aulas, os colegas (somos amigos até hoje!), o conteúdo: estudar células, dentes, procedimentos clínicos.


Depois de formada, fui convidada por uma editora a fazer revisão técnica de textos médicos e odontológicos traduzidos do espanhol e inglês para português. Aos poucos, comecei a “colecionar” os termos que eram mais frequentemente traduzidos equivocadamente, e acabei criando o Curso de Inglês Odontológico e o Pequeno Dicionário Inglês-Português de Termos Odontológicos, que foram publicados nos anos 1990, pela mesmo editora que havia me contratado para fazer as revisões (Editora Santos). Acredito que o Pequeno Dicionário seja o primeiro no gênero publicado no Brasil.
Ana Julia ao encontrar alguns livros traduzidos
por ela em um evento científico

A partir do sucesso dessas publicações, o dono da editora resolveu que eu é que deveria fazer as traduções, ao invés de revisar os textos traduzidos por outras pessoas. Então, comecei a traduzir e descobri o quanto adorava fazer aquilo. Em dez anos (de 1990 a 2000), traduzi mais de 20 livros de odontologia. Aí, um dia, minha vida deu um novo salto, quando uma amiga formada em Letras me disse: “eu sou tradutora, você não é”. Foi um choque ouvir aquilo, e resolvi que, se eu quisesse continuar me desenvolvendo na profissão, teria de voltar a estudar, já que eu realmente não era “tradutora” (no sentido acadêmico da palavra).

Assim voltei à graduação, com dois filhos pequenos, marido, trabalho com as traduções e casa para cuidar, e ainda conseguia estar entre as alunas que mais se dedicavam ao curso. Mas foi uma fase bem puxada. Depois disso, fui “picada” pelo bichinho do estudo, e não parei mais. Fiz especialização, mestrado, doutorado, cursos de extensão em interpretação e cursos fora do país (de Medical Interpreter, no Community College de Framingham, Massachusetts, e de Audio Description, com o Prof Joel Snyder, em Washington, DC).

Meus filhos foram criados muito próximos da gente, sendo levados a praticamente todos os lugares aonde íamos dar palestras, fazer cursos, lançar livros. Por sorte, acabei “doutrinando” também meu marido, que além de ser médico atuante na clínica, trabalha com tradução/revisão. E então, com o apoio e a compreensão da família, fica mais fácil conseguir cumprir os prazos, trabalhar em muitos finais de semana, ter de cancelar viagens de última hora. Essas coisas de tradutor freelancer.

SRM – Julia, você é autora, junto com o Dr. Sergio Jesus Garcia, do Grande Dicionário Ilustrado Inglês-Português de Termos Odontológicos e de Especialidades Médicas, o dicionário mais importante na área publicado no Brasil, com sua última edição pela Editora Transitiva em março de 2017. Como surgiu a ideia de fazer este trabalho? Em relação a outros dicionários técnicos de Medicina, quais você acha que seriam os destaques desta obra?
Palestrando em um encontro de Tradução e Ensino. Jan./2017

Ana Julia O Grande Dicionário foi uma extensão natural do Pequeno Dicionário (que publiquei nos anos 1990 pela Editora Santos). O Pequeno tinha uns 12 mil verbetes, e esse teve 25 mil verbetes na primeira edição (pela Editora Atheneu, uma editora médica). Foi criado pela expansão constante da nossa base de dados, a cada novo livro ou capítulo que eu ia traduzindo. Além disso, com a chegada dos computadores pessoais (PCs), laptops e da internet, tudo foi ficando mais fácil e rápido.

A principal diferença entre os dois primeiros dicionários, e todos os demais que fiz depois, acho que é o fato de entender que não estamos mais falando apenas para os profissionais da saúde. Nosso público é também de jornalistas, tradutores, intérpretes, professores. E a estes leitores não adianta apenas dizer que “perforation” deve ser traduzido como “perfuração” ou “trepanação”– temos que dar a definição dos termos que possam gerar confusão.

Um diferencial do Grande Dicionário é que, além de mostrar a forma equivalente na outra língua, em muitos verbetes vai apresentar a definição, e isso ajuda muito o usuário leigo, e também acaba ajudando o estudante de medicina, odontologia, enfermagem. Em alguns casos, ele mostra as remissivas internas (ou seja, outros termos que você deve consultar para entender melhor aquela palavra).

Outro diferencial são as ilustrações, que ajudam muito a explicar para o leitor o formato, tamanho e função de alguns termos. Além disso, graças a minha paixão por linguística, adoro enfocar a polissemia (múltiplos significados de uma palavra), então há no dicionário diversas ilustrações onde se encontram termos polissêmicos (ver ilustração abaixo), para ajudar os leitores a compreender as diferenças.
Grande Dicionário Atheneu, Ana Julia Perrotti-Garcia
Reprodução de ilustração do
Grande Dicionário Atheneu, página 72

Mas acho mesmo que o principal motivo de os leitores gostarem dos meus livros (eles é que dizem, não eu), é por que eu continuo trabalhando como tradutora e intérprete, e crio obras que procuram resolver os problemas terminológicos de profissionais reais, e não os termos que teoricamente podem ser importantes.
Meu sonho é ver o Grande Dicionário Inglês-Português traduzido para se tornar o Grande Dicionário Inglês-Espanhol, quem sabe alguém que esteja lendo esta entrevista conheça alguma editora interessada, seria maravilhoso!

SRM – Claro!! Vamos continuar falando sobre dicionários, já que você é autora de vários. Você segue uma metodologia predefinida para todas suas obras? Vai mudando dependendo da obra? Como se faz um dicionário?

Ana Julia – Ah, entendi, quer que eu passe a “receita do bolo”? Vamos lá, então. Bom, primeiramente, fazer dicionários é um exercício de paciência, dedicação e reflexão. Esses são os primeiros ingredientes indispensáveis.
O Pequeno Dicionário foi feito de forma “fisiológica”, ou seja, fui colecionando palavras ao longo de anos, em fichas de papel, e quando elas estavam ocupando dezenas de caixas de sapato, uma editora resolveu que era hora de mandar todo aquele material para uma digitadora, revisarmos e criarmos o dicionário (lembre-se que estávamos nos anos 1990, e os computadores eram uma grande novidade).

A partir daí, já com um banco de dados de mais de 20 mil termos, inglês-português, fomos fazendo glossários menores (pela série 1001 Termos da Editora SBS), em geral usando como semente uns primeiros termos da base de dados e enriquecendo por meio de pesquisas em corpus, e usando as ferramentas e recursos da linguística de corpus (listas de palavras, linhas de concordância etc).

Atualmente, trabalho com concordanciadores paralelos, ou seja, ferramentas que alinham (colocam lado-a-lado) textos em dois idiomas, e assim fica mais fácil perceber os termos mais relevantes, que terão maior probabilidade de aparecer nos textos que os leitores forem traduzir, ler ou pesquisar.
Ana Julia Perrotti-Garcia
Ana Julia interpretando
SRM – Julia, há poucos dias eu comprei seu último lançamento no Kindle Amazon, o Dicionário Espanhol Inglês e Inglês Espanhol de Termos e Expressões Médicas, pois minha língua nativa é o espanhol. Poderia falar um pouco sobre esta obra?

Ana Julia Claro, esse é nosso caçulinha. Há alguns anos, fiz com uma colega dentista/tradutora (Marise Zappa) um dicionário odontológico trilíngue. Ficou muito bacana, pois separamos os termos por especialidades, e fizemos três partes, em cada uma começando por um dos 3 idiomas, e mostrando os outros dois. Os leitores adoraram, mas ficaram pedindo que o livro fosse subdividido, pois acharam confuso os três idiomas aparecerem lado a lado.
Então, ao conceber o Dicionário Espanhol – Inglês e Inglês-Espanhol procuramos satisfazer esse pedido dos leitores. Também criamos a versão online, que é outro pedido frequente.

O sistema de publicação da Amazon é maravilhoso, pois posso ir criando novas edições (previstas para saírem anualmente), revistas e ampliadas e não só o online será atualizado, mas o impresso também, já que a impressão é feita on demand.

Este dicionário, embora menor que o Grande Dicionário, foi feito com base nas mais modernas tecnologias linguísticas, de forma que procuramos incluir os termos por critérios de relevância, aumentando a probabilidade de cada termo ser útil ao leitor.

Procuramos abordar temas da atualidade, que provavelmente não estão contemplados nos dicionários “clássicos” da área – abordamos termos de micologia, transtornos da alimentação, problemas de saúde ocupacional e transtornos mentais, que são temas muito recorrentes nos textos modernos. Também aceitamos sugestões de inclusão de termos e temas, para as edições futuras.
Ana Julia Perrotti-Garcia, tradutora, professora, intérprete



SRM – Sem dúvida que para as comunidades de tradutores de muitos países do mundo, parte de felicidade deve ser contar com a obra da Dra. Ana Julia Perrotti-Garcia, cuja excelência é mais que garantida. E para você, o que é a felicidade? Como é um dia qualquer em sua vida?

Ana Julia – Aqui podemos nos queixar de qualquer coisa, menos de rotina. Tenho uma agenda cheia, preenchida parcialmente, com antecedência. E tenho as coisas que vão surgindo no dia-a-dia. Trabalhos de tradução, de interpretação, de audiodescrição, que podem ser para daqui um mês, ou podem ser para daqui a uma hora. Claro que não dá para aceitar tudo, então muita coisa eu encaminho para colegas, para ex-alunos, para meus contatos e listas.
Felicidade, para mim, profissionalmente, é poder entregar um trabalho e ter a certeza que ficou o melhor possível, seja uma tradução, uma interpretação, um original de um livro autoral ou uma revisão de um texto. Quando recebo e-mails ou mensagens de pessoas que dizem que meu dicionário X ajudou muito, que foi muito útil, nessa hora fico cada vez mais motivada a prosseguir. Afinal, pelo menos no Brasil, ninguém que faz dicionários (livros em geral), os faz pelo dinheiro, mas sim pela satisfação de poder ajudar.

SRM – Para concluir, quero agradecer o tempo dedicado a responder minhas perguntas e gostaria que você deixasse uma mensagem final.

Ana Julia – Olha, nem sei se depois de falar tanto ainda vai ter alguém que resistiu e leu até aqui, kkk. Mas, de toda forma, só posso agradecer pela oportunidade e pela simpatia do convite. Agradecer a quem dedicou uns minutos para esta leitura, que espero que traga novos horizontes e possibilidades.
Trabalhando como intérprete em evento realizado na
Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo 2017
Um dia, quando eu resolvi que ia fechar meu consultório dentário (eu era muito bem-sucedida, tinha ótimos clientes e uma alta renda), deixar de atender meus pacientes e me dedicar totalmente às aulas, livros e cursos, foi algo que aconteceu naturalmente. Sei que muita gente achou que era loucura, e talvez tenha sido mesmo. Mas, a gente tem que acreditar naquilo que acha ser o certo, e correr atrás, e amar cada nova oportunidade, cada novo texto, cada projeto concluído. Acho que essa é a mensagem que gostaria de deixar: Adore o que você faz, mas vá se reinventando a cada dia, sempre procurando melhorar mais, e de olho nas mudanças culturais, sociais e tecnológicas, para continuar sendo útil e relevante para o mundo.

(*) ANA JULIA PERROTTI-GARCIA

  • Doutora em Língua e Literatura Inglesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (SP)
  • Mestre em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (SP)
  • Especialista em Tradução pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (SP)
  • Cirurgiã-Dentista Formada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, (SP)
  • Graduada em Letras (Tradução e Interpretação) pela FMU de São Paulo (SP)
  • Especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial pelo Instituto Metodista de Ensino Superior (SP)
  • Proficiency em Língua Inglesa pela Universidade de Cambridge (Inglaterra)
  • Tradutora de Palestras, Livros, Dicionários, Teses e Artigos Científicos, Médicos e Odontológicos
  • Autora de Glossários, Dicionários e Cursos de Inglês

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