Uso de "A gente" como pronome. Artigo muito interessante da Revista Língua

Pronombre "A gente"


Fenômeno exclusivo da língua portuguesa, o uso do substantivo "a gente" como pronome virou sinal de quem quer compartilhar experiências e responsabilidades, por John Robert Schmitz
As línguas mudam com o tempo e as mudanças ocorrem paulatinamente sem os usuários perceberem. Uma mudança bastante "dramática" na língua portuguesa, que a destaca das outras línguas românicas, é uso da expressão "a gente" como pronome. O francês, o espanhol, o italiano e o catalão mantêm "gente" como substantivo. A língua portuguesa é realmente inovadora do ponto de vista lingüístico. Tal mudança contribui para o enriquecimento do quadro pronominal do idioma, pois os falantes têm nos seus respectivos repertórios, além de "eu" e "nós", uma outra forma de expressão - "a gente".

Bem sabia Tarsila do Amaral, pintora de grandes grupos com cara de Brasil e inspiradora da antropofagia dos modernistas Oswald de Andrade e Raul Bopp, que é brasileira como "a gente" essa coisa de quem vive em companhia e intimidade, mas sem formalidades. A presença de "a gente" no português oferece "certo problema de aprendizagem" para falantes de espanhol, italiano e outros idiomas, pois os aprendizes nem sempre percebem que "a gente" funciona como substantivo e também como pronome.


Ana Maria Zilles, numa pesquisa de vulto sobre o tema, publicada em 2000 na prestigiosa revista Language Variation and Change, comenta que o substantivo "a gente" em português adquiriu no curso de seu desenvolvimento a função gramatical de pronome. Ana Maria informa que existe um paralelo com o pronome "você", que se originou da forma de tratamento "vossa mercê", utilizada inicialmente para se dirigir ao rei, mais tarde usada por entre a nobreza na corte e mais recentemente pela burguesia portuguesa e brasileira.


No seu desenvolvimento histórico, "vossa mercê" sofreu várias reduções fonológicas: vossamecê, vosmicê, você. A diferença entre os dois pronomes é que "você" se originou da elite, ao passo que "a gente" tem origem na fala popular. "A gente" ocorre hoje em dia na fala de todas as classes sociais e de diferentes graus de instrução, primeiramente em textos informais e, nos últimos anos, em textos semiformais.


O uso de "a gente" ainda não tem prestígio oficial, sendo considerado pouco apropriado em textos escritos formais, como requerimentos, teses e dissertações, textos jurídicos, procurações, editais, alvarás, atestados, declarações, escrituras, leis e boletins de ocorrência. Num exame de textos jornalísticos, podemos observar que "a gente" como pronome não ocorre em editoriais. Seria infeliz o uso do referido pronome por parte de um estudante na prova de redação de um concurso vestibular, a não ser que o emprego do pronome pelo vestibulando seja para construir e representar a fala numa conversa ou num diálogo.


Na fala, no entanto, impera. Ouve-se "a gente" em sermões (especialmente os improvisados, não escritos), reuniões de condôminos, encontros de pais e mestres, comícios e interações entre professores e alunos em sala de aula, conversas ou bate-papos virtuais.


Em vez de excluir (como o uso excessivo do pronome "nós" pode fazer), "a gente" é democrático, pois inclui as pessoas presentes na conversa, nivela diferenças sociais e aproxima os participantes no discurso. O pronome sujeito "a gente" ocorre também na linguagem conversacional de todas as classes sociais, independentemente de grau de instrução.

Pouco a pouco, os diferentes usos pronominais de "a gente" estão "invadindo" ensaios políticos e crônicas. "Morrer de tédio no Brasil é que a gente não vai, não é mesmo?", bradou Bárbara Gancia, no artigo Sai, Palocci, sai já daí! (Folha de S. Paulo, 24 de março de 2006, C 2). Dora Kramer resigna-se, buscando cumplicidade com a gente: "As coisas andam de um jeito que, quando a gente pensa que já se chegou ao fundo do poço em matéria de vilanias, algo pior acontece" (Espáculo mamembe, Gazeta do Povo, Curitiba, 6 de abril de 2006, p. 16).

A Rede Globo de televisão anuncia "A gente se vê por aqui". É comum em textos de propaganda exemplos do tipo, como: "A gente está lembrando de você no dia de seu aniversário", "Sonhe com o mundo. A gente leva você".  Dizer que alguém é "um amigo da gente" em vez de "amigo nosso" exemplifica uma cordialidade e um engajamento por parte do usuário. Envolvente e democrático é o dito: "Curitiba, Cidade da Gente", estampado nos ônibus daquela cidade.

Freqüentes na fala informal de todos os usuários são "coisa da gente" (coisa nossa) e "Isto é da gente" (é nosso). Ouvem-se na mídia enunciados como "Fique com a gente", "Conta para gente", "Empresta o livro pra gente" e "Diga a verdade para a gente". Na linguagem publicitária, em outdoors e cartazes, ocorrem vários exemplos: "Seus pais não falam de sexo com você? Fale com a gente" e "Fale com a gente. É tão fácil quanto andar de metrô".  O uso de "a gente" é um recurso para compartilhar experiências e responsabilidades.
 "A gente" aparece num grande número de canções brasileiras. Vejam duas linhas da canção Além do Horizonte, de autoria de Roberto Carlos e Erasmo Carlos: "Onde a gente pode se deitar no campo se amar na relva escutando o canto dos pássaros." Ou as palavras de A Noiva da Cidade, de Francis Hime e Chico Buarque: "Ou será que a moça já no alto não escuta o sobressalto do coração da gente." Na canção João e Maria, de Sivuca e Chico Buarque, temos duas ocorrências: "A gente agora já não tinha medo / No tempo da maldade / acho que a gente nem tinha nascido." O pronome ocorre no título de A Gente Precisa Ver o Luar, de Gilberto Gil, e nos versos: "que a gente ver o luar/ Que a gente precisa ver para crer/ Diz o dito popular."

Se "a gente" é um vocábulo gramatical com tanta versatilidade na língua portuguesa, ele contribui para a originalidade do idioma, em comparação com as outras línguas românicas. As canções brasileiras, nossa expressão coloquial, o país enfim, não seriam os mesmos sem a existência e a presença desse pronome.

John Robert Schmitz é professor do Departamento de Lingüística Aplicada, no Instituto de Estados da Linguagem da Unicamp


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