Exquisito. Top Ten de falsos amigos portugués<-->español... Traducción y un artículo imperdible en portugués.

Torta exquisita = Bolo delicioso
Cuando llegó a Buenos Aires para radicarse, hace muchos años, mi primera amiga brasileña quedó impactada al ver en las góndolas de los supermercados nuestras famosas tortas EXQUISITA... Nunca más se equivocó al usar esta palabra que está muy lejos de significar lo mismo en español que en portugués, justamente todo lo contrario!

En portugués, la palabra ESQUISITO significa, en su principal acepción algo no usual, poco común, extraño, raro...

Cuando hablamos de una comida, si queremos decir que es "exquisita", en portugués diremos que es "deliciosa, gostosa".

A continuación, un artículo en portugués que analiza el origen del término "Esquisito". No dejen de leerlo, es muy interesante.

A dificuldade de pensar as origens de certas palavras portuguesas muito parecidas com as de outros idiomas, mas com significados diferentes

Por Mário Eduardo Viaro

Os falsos cognatos constituem verdadeiras pedras de tropeço no aprendizado das línguas modernas. Quem estuda inglês, francês, italiano ou espanhol muitas vezes se depara com palavras muito parecidas com suas correspondentes portuguesas, mas que não significam exatamente a mesma coisa. A razão da existência dos falsos cognatos reside basicamente nas diferenças de uso condicionadas pelas normas lingüísticas.
Intermediária entre o sistema da língua e a fala, a norma, tal como proposta por Eugenio Coseriu (1921-2002), seria uma terceira instância entre o jogo de regras que alicerça uma língua e o caos presente nos discursos. A norma é o conjunto que dita as preferências, redundâncias e tendências das línguas. Por exemplo, uma língua pode não fazer distinção entre os sons ô e ó, mas usá-los sistematicamente em contextos diferentes, de uma forma distributiva e previsível. As preferências contextuais também fazem parte da norma e são de vital uso para as mudanças semânticas que perpassam os chamados falsos cognatos.

Em espanhol, exquisito significa basicamente “refinado, delicioso, bom” e isso não é nada particular: em francês, com o mesmo sentido, temos exquis; no italiano, squisito; no inglês, exquisite; e até mesmo no alemão, exquisit. Por que a palavra portuguesa esquisito tem um sentido tão distinto? Vendo de perto a etimologia da palavra, caímos no latim exquisitus, particípio do verbo exquirere, por sua vez, formado do prefixo ex- “para fora” e da mesma raiz de quaerere “procurar, buscar”.
Dentre um todo

Algo exquisitus é, portanto, algo extraído dentre um todo, algo escolhido a dedo. Por isso, Cícero (Brutus 104) fala de exquisiti et Graecia magistri para os professores gregos escolhidos com grande cuidado e em outra passagem (Philippicae 4,6) emprega a mesma palavra no sentido figurado, quando fala de “palavras apropriadíssimas” (exquisitissima verba). Em nenhum lugar o sentido é pejorativo, o que nos faz pensar que isso é peculiaridade exclusivamente do português e, portanto, aconteceu tardiamente, num processo do qual nem o espanhol participou.

No dicionário de 1813 do brasileiro Antônio de Morais Silva (1755-1824), o sentido de exquisito em português (na época, também escrito com x como nos seus cognatos) é também somente positivo: fala-se da suavidade tão exquisita da música, de manjares exquisitos, de viandas exquisitas. “Esquisito” é, como em todas as línguas, sinônimo de “ótimo, excelente, invulgar, incomum”. Cite-se, por exemplo, um dos trechos de Morais Silva: as palavras sejão vulgares, não já populares, nem exquisitas. O termo “esquisito”, nesse caso, é o oposto de popular. Veja-se nisso um valor depreciativo do povo: tudo que é popular não é refinado, isto é, não é esquisito, na acepção antiga do termo.

Por outro lado, o povo vê amiúde as coisas exóticas que não participam do seu quotidiano como excessivas, excêntricas, estranhas, isto é, esquisitas, na acepção moderna do termo. Dessa forma, o significado atual do português reflete uma cosmovisão popular, diferentemente do que ocorreu nas outras línguas.

Estranhezas
Em 1858, o Novo Dicionário Portátil da Língua Portuguesa de M. M. D´Antas já traz a grafia com s, mas não abona o sentido de “estranho”, embora haja, no verbete, a ambígua indicação (fig.) não-vulgar. Oito décadas depois, a segunda edição do Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Lingua Portugueza de J. Timóteo da Silva Bastos já prefere esquisito como (fam.) excêntrico, estrambótico, maníaco. Mais que isso: já fala de esquisitice, como (fam.) qualidade do que é esquisito; excentricidade; extravagância.

O cerco necessário à pesquisa etimológica já está feito: o significado extravagante da palavra aparece na segunda metade do século 19 e de tal forma se consolidou que até mesmo gerou a palavra derivada esquisitice. O Dicionário Houaiss hoje ainda abona, como primeira acepção, seu sentido etimológico de “encontrado com dificuldade; raro, precioso, fino”, apesar de totalmente arcaico, ao lado de seus derivados: esquisitice, esquisitão, esquisitório, todas sem datação.
O desconhecimento do momento da mudança de sentido faz-nos entender erradamente os autores antigos ou, na melhor das hipóteses, dar um sentido ambíguo a algo que não tem. Quando Almeida Garrett diz “Do rifão que tomei para epigraphe d’esta memoria. verá o leitor que mui bem senti os inconvenientes do nome exquisito e desconhecido que vae á frente da obra”, não tem qualquer intenção de dizer que o tal nome seja estranho, pelo contrário, que é excelso ou admirável.

Na Nova Floresta (1706), de Manuel Bernardes (1644-1710), há já o sentido de “raro, incomum” quando diz “Não fugia isto à notícia do tirano, o qual, querendo concluir por uma vez esta causa, quis que fosse por um género de morte mais esquisito.”
Em O Crime do Padre Amaro (1875), de Eça de Queirós (1845-1900), no entanto, já se vê claramente o sentido de “estranho” ao afirmar que “estou hoje esquisito; tenho andado ultimamente fora dos eixos”.

Percurso da ironia
Consultando o Corpus do Portu­guês,de Mark Davies e Michael J. Ferreira (http://www.corpusdoportugues.com), observa-se que de fato é a segunda metade do século XIX a responsável pela mudança: o novo valor da palavra ocorre já em Machado de Assis (1839-1908), Júlio Dinis (1839-1871), Camilo Castelo Branco (1821-1890), Ramalho Ortigão (1836-1915), embora tenha certa resistência, por exemplo, em Rebelo da Silva (1822-1871) e Júlio Ribeiro (1845-1890). Artur Azevedo (1855-1905), contudo, oscila entre os dois usos.

Contrariamente a essa descoberta, verifica-se que um uso irônico da palavra aparece na correspondência da Marquesa d´Alorna (1750-1839), já em 1809:
“Não foi mais possível ver Dom D. Rodrigo nem falar-lhe, nem respondeu a cartas, nem deu passaportes, nem concluiu nada. Método esquisito de tratar negócios de tanta importância, pois entre gente tão distinta e tão importante, uma decisão, uma resposta favorável ou negativa, poupa tempo, danos e ruínas de fazenda, honra e vida”.

Esse trecho é interessante (aparentemente aí significa apenas “excelente”), pois a ironia é um dos maiores mecanismos de mudança semântica. Eis aí o passo crucial da transformação. Muitas palavras cultas tornam-se populares, pelos mais diversos motivos, mas essa transição nem sempre é tranqüila: uma reviravolta no sentido é importante e comum.

Cabeçadas
A ironia está presente também no significado da palavra testa, que, no italiano, diferentemente do português, significa “cabeça” (como o francês tête). O sentido original da palavra era, contudo, um vaso de cerâmica, um caco de cerâmica, uma telha. Como, metaforicamente, a cabeça é o telhado do corpo, pois se situa na sua parte superior, foi tranqüila a passagem do sentido original para o metafórico e isso se comprova novamente na expressão portuguesa faço o que me der na telha.
Uma boa dose de ironia foi necessária para desbancar o termo neutro para “cabeça”, ou seja, caput. Aliás, as partes do corpo foram, muitas vezes, vítimas de brincadeiras que saíram do âmbito da parole e entraram definitivamente para o sistema: a palavra “boca” vem de bucca, que inicialmente significava “fenda” (desbancando assim a palavra os, que só sobrevive no adjetivo culto oral), “perna” não vem de crus, mas de perna, que significava “pernil” (novamente, fala-se de osso crural). Uma certa crueza povoa as metáforas corporais, de modo que, muitas vezes, antigos nomes aplicáveis apenas a animais migram para o corpo humano: lombo, fuça, pata, rabo etc.

Exóticos
Da mesma forma que “esquisito”, a palavra “exótico” transformou seu sentido: de “estrangeiro” passou a significar “raro, extravagante”, fato que aconteceu com a própria palavra extraneus na sua passagem para as línguas românicas.

Stephen Ullmann (1914-1976), no seu completíssimo Manual de Semântica, explora inúmeros exemplos de mudança semântica e destaca a freqüência com que a carga pejorativa se vai evidenciando nos termos ao longo do tempo. Cita os seus precursores, que viam, nessa tendência pessimista, algo intrínseco ao ser humano.

De fato, raros são os casos meliorativos e abundam as depreciações: imbecil significava simplesmente “fraco” e da esfera física migrou para a psíquica (assim como ocorreu com débil), cretino é um galicismo que remonta a uma variante dialetal de “cristão”, vilão era somente o habitante da vila. Em inglês egregious não significa mais “egrégio”. Se, no português, essa palavra significa “distinto, digno, importante”, conservando o significado latino (ao contrário do que aconteceu com esquisito), no inglês, passou a significar, segundo o dicionário Oxford, “outstandingly bad, shocking” (má reputação, ofensivo).

O mesmo se passa com notorious, que não é “amplamente conhecido”, mas algo como “famigerado”. A própria palavra famigerado não é apenas atribuível a quem tem fama, mas a quem tem má-fama (Guimarães Rosa, aliás, tem um interessante conto homônimo em que isso fica bastante evidente).
Essa pejoração generalizada se encontra não só em palavras, mas também em elementos de composição: o sufixo -eiro que servia neutramente apenas para formar adjetivos (certeiro), ao longo do tempo passou a designar profissões (marceneiro, engenheiro), árvores (limoeiro) etc. e, por fim, descambou nos últimos séculos a designar profissões pouco qualificadas, em oposição às formadas com o sufixo -ista, mais recente (pianista se opõe a pianeiro “mau pianista”), sem falar que desde o século 16 está nas formações de palavras que designam doenças (cegueira), incômodos (leseira, canseira) e outras atitudes reprováveis (ladroeira, bobeira, asneira). O -ista, acima referido, cuja produtividade é tão recente (praticamente dois séculos apenas), já apresenta alguns sentidos negativos (arrivista, consumista, piadista).

Ironicamente, as palavras, tendendo para a pejoração, nos ensinam algo importante: mesmo não sabendo de onde viemos, temos certeza, ao menos, de para onde vamos.

Artículo publicado en la Revista Língua Brasileira.

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