A Tradução em Clarice Lispector

0



Publicado em: http://www.unigran.br/revistas/interletras/ed_anteriores/n9/artigos/artigo03.pdf


A TRADUÇÃO EM CLARICE LISPECTOR

Edgar Cézar Nolasco*
Rony Márcio Cardoso Ferreira


RESUMO: O ensaio detém-se na prática de tradução efetuada por Clarice Lispector, entre 1974 e 1976, condensando-se principalmente nos últimos dois anos. É sabido, apesar de a crítica não ter dado a devida atenção, que a escritora, com a finalidade de reforçar sua vida financeira,” precisou” traduzir livros dos mais diferentes gêneros, resultando em mais de trinta títulos. Postula-se, no ensaio, que tal tarefa de tradução não só alterou significativamente todo o projeto literário da autora, como influenciou diretamente sua produção da época, a exemplo de A hora da estrela que não deixa de ser uma releitura/ reescritura traduzida de A rendeira, de Pascal Lainé.

ABSTRACT: The rehearsal analyses the practice of translation made by Clarice Lispector, between 1974 and 1976, condensing it mainly in the last two years. It is known, in spite of the critic didn't give the necessary attention, that the writer, on the purpose of reinforcing her financial life, " needed " to translate books of the most different goods, resulting in more than thirty titles. It is postulated, in this rehearsal, that such translation task didn't only altered the whole literary project of the author significantly, as it directly influenced her production of that time, as an example the book A hora da estrela, that can be related as a rereading / translated rewriting of the book A rendeira, by Pascal Lainé.




PALAVRAS-CHAVE: Clarice Lispector, Tradução, Desconstrução.

KEYWORDS: Clarice Lispector, Traduction, Desconstruction




Nunca se escreve nem na própria língua nem na língua estrangeira.
Jacques Derrida. Sobreviver.
∗ Prof. Dr. do Curso de Letras (DLE) e do Curso de Pós-graduação Mestrado em Estudos de Linguagens do Centro de Ciências Humanas e Sociais (CCHS) da Universidade federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Desenvolve o projeto “Clarice Lispector tradutora” financiado pelo CNPq (Edital Universal 2008- 2009).
∗∗ Acadêmico do 3° ano do Curso de Letras (DLE) do Centro de Ciências Humanas e Sociais (CCHS) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Bolsista de Iniciação Científica pelo PIBIC/CNPq desde 2007. Atualmente desenvolve o Plano de Trabalho “Tradução cultural em A hora da estrela de Clarice Lispector” e exerce as funções de Monitor de Ensino de Graduação na disciplina de Teoria da Literatura II, ambas atividades orientadas pelo Prof. Dr. Edgar Cézar Nolasco.

O que a desconstrução não é? É tudo!
O que é desconstrução? É nada!
Jacques Derrida. Carta a um amigo japonês.

Como já dissemos em outro textoi, nossa leitura em torno da tradução feita por Clarice Lispector centra-se, basicamente, em duas questões de nosso ponto de vista fundamentais. A primeira destas questões volta-se para a tradução como desconstrução, ou seja, a forma apropriativa inventiva como a tradutora Clarice estabelece o diálogo com a obra alheia com a intenção certeira de tirar proveito para a sua própria criação literária.

Nesse sentido, é escusado dizer que a escritora escamoteia tal proveito em benefício próprio, aliás, como sempre ocorrerá com sua forma de dialogar com a tradição literária que de fato ancora todo o seu projeto intelectual. Se aqui ela se vale de uma denegação pensada, como forma de rasurar a lembrança de seus possíveis precursores (autores e obras), no caso da tradução ela exerce seu poder de apropriação do texto do outro (e da língua) propondo, por conseguinte, uma leitura tradutória complementar que, por sua vez, pela proposta de originalidade/invenção apaga qualquer suposta autoria (alheia/preexistente).

Ou seja, ressalvadas as diferenças quase imperceptíveis entre o processo de ficção e o processo de tradução trabalhados por Clarice, constata-se que sua prática tradutória, já no final da vida, só vem suplementar e alterar ainda mais o próprio processo de criação do qual a autora leva ao limite máximo na última década de vida, principalmente no tocante à sua apropriação desbragada das obras alheias. Ainda sobre o trabalho da tradução posto em prática por Clarice, deve-se dizer que a compreensão do mesmo passa, de uma forma ou de outra, pelo exercício da desconstrução, considerando que esta é sempre movida e conseqüência de um gesto transferencial. Ou seja, a tradução como desconstrução em Clarice Lispector é sempre o resultado de uma reflexão que se dá através da transferência. Depois voltaremos a isso.

A outra questão a que nos referimos no início, por nós privilegiada em torno da tradução feita pela escritora, diz respeito à condição financeira da intelectual enquanto causa propulsora do trabalho despreendido à tarefa da tradução. Entendemos que a triste constatação das condições econômicas pela qual passara a intelectual alterou sobremaneira, consciente ou inconscientemente, não só o seu projeto literário, como também, e principalmente, levou a escritora a traduzir obras dos mais variados assuntos e tipos, os quais, muitas vezes, poderiam não agradar. Essa tradução variada entre si, compreendida entre alta e baixa literaturas, gêneros dos mais diversos, da literatura fantástica à ficção científica, passando por livros de best-sellers aos de auto-ajudas, toda, enfim, essa “literatura” traduzida ao ser incorporada pela língua da tradutora foi-se também incorporada a sua ficção, passando, por conseguinte, a fazer parte dos interesses de seu projeto intelectual como um todo.

Ressalta-se em importância a discussão crítica em torno do trabalho “extra” efetuado pelo intelectual visando melhor atender suas condições econômicas, a exemplo aqui de Clarice Lispector à época, quando se constata que o referido trabalho acaba por situar a figura do intelectual na sociedade, contribuindo para que se tenha assim seu perfil (papel, lugar e função), além de mostrar que seu próprio projeto intelectual está sujeito às intempéries das necessidades econômicas de seu autor. Aliás, nesse sentido, reitera-se que não são só as guerras e as pestes, as quedas dos muros e das torres que alteram substancialmente os projetos e, por extensão, as produções culturais de uma época. A vida de um intelectual, com todos os seus atravessamentos como perdas e faltas, por exemplo, também ancora o seu projeto e, por conseguinte, marca todas as suas produções culturais. A assinatura, o nome próprio no corpo da obra pode ser a inscrição, ou a porta de entrada para a compreensão de tal relação.

Da leitura que fazemos de Clarice como tradutora, entendemos que a questão atinente à questão financeira da intelectual não deve ser ignorada de qualquer estudo que vise a compreensão do processo de tradução como apropriação e desconstrução levado a cabo pela escritora.

Por toda sua vida intelectual, a escritora Clarice Lispector sempre fez algum tipo de tradução, muitas vezes, inclusive, dividindo o trabalho com um amigo, como textos dramatúrgicos, por exemplo. Sua ficção, principalmente seus textos menores, como as crônicas, estão recheados de trechos de obras alheias traduzidas por ela. Aliás, quase sempre procurou traduzir tudo o que inseriu em sua literatura, inclusive no tocante às epígrafes. Mas foi na última década de sua vida, principalmente entre os anos de 74 e 76, mais precisamente nos dois últimos anos, que tal ofício, de forma densa e repetitiva, tornou-se efetivo.

Também reitera e justifica o que já dissemos sobre a condição financeira da escritora o fato de ela ter sido “expulsa” sumariamente do Jornal do Brasil:

no dia 2 de janeiro [1974] eu recebi um envelope, e dentro tinha as minhas crônicas. E uma carta seca sem nem agradecer os serviços prestados durante sete anos, dizendo que daí em diante eu estava dispensada de trabalhar. Então eu movi uma ação” (Apud GOTLIB, 1995, p.415).

Diríamos que falta uma página de crítica sobre a referida demissão de Clarice Lispector do Jornal do Brasil. Fica por conta da demissão, como já demos a entender, o trabalho intensificado como tradutora nos dois anos subseqüentes. E diríamos, agora, que não é só por conta do que é “obrigada” a traduzir, mas também por conta de pedidos de editores e da necessidade de publicar textos em mais jornais, como forma de ganhar dinheiro, além de conceder entrevistas, que não só seu projeto é substancialmente alterado, como também sua forma de escrita, resultando em períodos mais curtos e diretos, textos mais enxutos e livros bem menores. Soma-se a tudo isso a constatação de que a escritora se volta para uma temática mais cotidiana, mais pura e simples, sem medo de beirar o grotesco, quase sempre suas personagens aparecem em questões envoltas ao sexo e à magia, descarnadas de qualquer pre/conceito. Aliás, como Clarice diz pela boca de uma dessas personagens da época, entrou literalmente nessa e ganhou a parada (Quem perdeu, mais uma vez, foi o Jornal que a demitiu, com certeza.).

É significativo da discussão que estamos propondo, lembrar que foi no mesmo ano em que foi demitida que a escritora aceita − tão à revelia de seu projeto anterior − escrever e publicar um livro todo sob encomenda. Trata-se, obviamente, de A via crucis do corpo. Isso, por sua vez, só reitera como as necessidades financeiras de um intelectual podem alterar para sempre um projeto que, até então, parecia inalterável. Daí nosso interesse em insistir na questão, tendo em pano de fundo a trajetória pessoal de Clarice Lispector enquanto intelectual brasileira, posto que a situação sinaliza a condição para pensar relegada ao intelectual em determinada época e cultura. Nádia Battella Gotlib já observara que a escritora em tom “ressentido e despeitado” volta a comentar sobre sua demissão ao falar de suas traduções:

é o meu sustento. Respeito os autores que traduzo, é claro, mas procuro me ligar mais no sentido do que nas palavras. Estas são bem minhas, são as que elejo. Não gosto que me empurrem, me botem num canto pedindo as coisas. Por isto senti um grande alívio, quando me despediram de um jornal, recentemente. Agora só escrevo quando quero (Apud GOTLIB, 1995, p.416).

Mais do que ilustrativa, a comparação que a autora acaba instaurando entre sua demissão e seu trabalho de tradução reitera a parte de nossa leitura que amarra a condição econômica do intelectual ao seu projeto como um todo. Salta da comparação que Clarice faz entre a demissão (na verdade o emprego no Jornal do Brasil) e a tradução, que ambas visavam exclusivamente seu sustento. Quando ela diz que respeita os autores que traduz, não deixa de aludir também ao desrespeito que o referido jornal exerceu com ela, demitindo-a sem causa aparente. Tanto é verdade que Clarice à época recorreu à justiça e perdeu. Se a demissão e o trabalho de tradução lhe dão mais liberdade e autonomia, levando-a, por exemplo, a escrever quando quer, permitindo-a criar, atribuindo sentido às palavras dos outros que na verdade são suas, por outro lado, a demissão, por conseguinte, obriga-a a não só ter que traduzir de tudo, com dissemos, como também a escrever quando quer e quando não quer, o que quer e o que não quer, descentralizando assim sua própria literatura. Mais uma vez, o livro escrito sob encomenda A via crucis do corpo, Onde estivestes de noite e outros textos curtos da época são exemplares.

A relevância do trabalho efetuado por Clarice Lispector resume-se, grosso modo, não só pela quantidade de obras “traduzidas”, mas também pelas práticas empreendidas: ora Clarice simplesmente “traduz”; ora faz adaptações literais; ora reescreve completamente algumas obras; ora recria baseado em obra alheia. Ao agir assim, Clarice não só embaralha os processos tradutórios com os processos de criação, como subverte a noção de autoria. Enfim, mais uma vez, a prática de tradução só reforça a prática de criação como denegação nunca assumida dos possíveis amigos literários.Ou seja, se Clarice copia dos outros e não assumi que os copiou em sua ficção, agora podemos dizer que ao traduzir ela copia pelo menos duas vezes: copia o texto do outro traduzindo seu próprio texto.

Desdobra-se em relevância quando entendemos que tais práticas efetuadas pela “tradutora” vão interferir radicalmente no seu processo de criação como já dissemos, alterando inclusive seu projeto intelectual. Ou seja, percebemos que ao “precisar” traduzir os mais diferentes tipos de textos (altas literaturas, ficção cientifica, auto-ajuda, Best-seller entre outros), Clarice, valendo-se de uma relação transferencial, uma apropriação que pode ser inconsciente, incorpora tais textos disseminando-os em sua própria literatura.

Daí já podermos afirmar que sua última produção, ou seja, a produção da década de 70, sofreu influência direta de sua prática de tradução. Pelo que já constatamos, inclusive, há entre a referida produção livros como o importante A hora da estrela que não deixa de ser uma tradução reescrita do livro A rendeira (1974), de Pascal Lainé. Neste caso, o fato de Clarice ter traduzido o livro francês pode ter sido o desencadeador de toda a história resultante no livro A hora da estrela. Não é por acaso que Jayme Salomão, ao comentar a tradução, diz que a mesma “(seria melhor dizer recriação) encontrou em Clarice Lispector o nome mais adequado para recuperar, à altura do original em nossa língua, toda força e beleza do texto francês” (Salomão, na orelha do livro).

Apesar de a crítica brasileira não ter se dedicado à tradução feita por Clarice Lispector até o momento como já salientamos, não estamos propondo deter-nos na tradução operada por ela propriamente dita, mas, sim, e principalmente, na forma como as obra “traduzidas” vão interferir alterando radicalmente o projeto da intelectual. Para tanto, entendemos que a teoria da tradução nos ajuda a entender como se deu tal alteração. Na verdade, ao nos deter em tais práticas efetuadas pela escritora brasileira, estamos querendo também discutir o como a “condição econômica” de um intelectual pode alterar substancialmente seu projeto esteticamente, como foi o que suspeitamos ter acontecido com a intelectual Clarice Lispector.

Postulamos que as obras publicadas por Clarice Lispector na década de 70, como os livros A hora da estrela (1977), A via crucis do corpo (1974), Onde estivestes de noite (1974), Um sopro de vida (1978), A bela e a fera (1979), A vida íntima de Laura (1974), Quase de verdade (1978), Visão do Esplendor: impressões leves (1975) e De corpo inteiro (1975), sofreram influência direta dos livros traduzidos por ela. Como contatamos nas obras traduzidas pela escritora, a “tradutora” Clarice Lispector assume uma autoria múltipla e descentrada com relação às obras alheias. Há inúmeras obras realmente traduzidas por ela; há obras adaptadas; há obras traduzidas e adaptadas; há obras selecionadas e reescritas; há obras baseadas na obra original; há obras em texto em português da autoria de Clarice Lispector, entre outras formas de tradução como desconstrução que autenticam uma suposta autoria clariciana com relação às obras apropriadas em língua portuguesa.Daí pensarmos que toda aquela atmosfera de mistério, de ficção científica, de fantástico, de literatura best-seller, literatura de massa, literatura de auto-ajuda, alta literatura, literatura pornográfica e afins que ronda a última produção da autora ter sido por conta dos livros “traduzidos” por Clarice.

REFERÊNCIAS

ARROJO, Rosemary. Tradução, desconstrução e psicanálise. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1993.
__________. Oficina de tradução – a teoria na prática. São Paulo: Ática, 1992.
__________. O signo desconstruído. Campinas: Pontes, 1992.
__________. In.: JOBIM, José Luis (Org.). Palavras da crítica. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. P. 411 – 442: Tradução.
GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1995.
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Trad. de Junia Barreto. Belo Horizonte: Editora UFMS, 2002.
_________. In.: OTTONI (Org.). Tradução: a prática da diferença. Campinas: Editora da Unicamp, 2005. P. 21 – 27: Carta a um amigo japonês.
_________. In.: OTTONI, (Org.). Tradução: a prática da diferença. Campinas: Editora da Unicamp, 2005. P. 155 – 174: Teologia da tradução.
GLENADEL, Paula e NASCIMENTO, Evando (Orgs.). Em torno de Jacques Derrida. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000.
LAINÉ, Pascal. A rendeira. Trad. de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
________.Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
________.A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
OTTONI, Paulo (Org.) Tradução: a prática da diferença. Campinas: Editora da Unicamp, 2005.
________. Visão performativa da linguagem. Campinas: Editora Unicamp, 1998.
________. Tradução manifesta: double bind & acontecimento. São Paulo: EDUSP; Campinas: Editora Unicamp, 2005.
________. Traduzir Derrida: políticas e desconstruções. Campinas: Mercado de Letras, 2006.
PAZ, Octavio. Traducción: literatura y literalidad. Barcelona: Tusquets Editor, 1971.
CERRADOS. Revista do Programa de Pós-graduação em Literatura. Literatura e Presença: Clarice Lispector. Universidade de Brasília/ n° 24/ ano 16/ 2007, p. 263 – 272: Clarice Lispector tradutora.

i Ver o texto “Clarice Lispector tradutora”. In.: Cerrados (UnB), n° 24/ 2007, 263 – 272.
Author Image

about: Sonia Rodríguez Mella

¡Hola! Me encanta traducir y creé este blog para poder transmitir mis experiencias en el estudio de idiomas y otras pasiones relacionadas, como la producción de glosarios y diccionarios. Mis áreas preferidas son las de medicina, contabilidad, gastronomía y canciones. ¿Quieres saber más de mí? Esta soy yo.

No hay comentarios.: